O tradicional São João da Praça Maria Aragão começou oficialmente na noite desta quinta-feira (4), abrindo mais uma temporada daquela que é, sem dúvida, a maior manifestação cultural do Maranhão. A expectativa era enorme. Afinal, São Luís consolidou-se nos últimos anos como um dos principais destinos juninos do Brasil, atraindo turistas, movimentando a economia e, sobretudo, valorizando uma cultura centenária.
A abertura contou com o cantor Henry Freitas, artista em ascensão no cenário nacional e dono de um carisma que conquistou o público presente. Com muita energia, interação e um repertório que mistura diversos ritmos, o cantor fez o seu papel. O público cantou, dançou e transformou a noite em uma grande festa.
Não há qualquer questionamento sobre a competência do artista.
A discussão é outra.
A pergunta que fica é: um show com forte influência de ritmos que não pertencem à tradição junina nordestina é a melhor escolha para abrir oficialmente o principal arraial da capital maranhense?
Para muitos apaixonados pela cultura popular, a resposta é não.
O palco da Maria Aragão não é apenas mais um espaço para grandes shows. Ele simboliza a força de uma tradição construída por gerações, marcada pelo Bumba Meu Boi, pelo Tambor de Crioula, pelo Cacuriá, pelas quadrilhas, pelos grupos de forró pé de serra e por todas as manifestações que fazem do São João maranhense um patrimônio cultural único.
Quando a abertura da festa é marcada por um repertório distante dessa identidade, surge uma sensação desconfortável de que a cultura local está cedendo espaço para uma lógica puramente comercial.
Não se trata de rejeitar o novo ou fechar as portas para artistas nacionais. Eles têm seu espaço e são importantes para ampliar o alcance do evento. O problema é quando esse espaço ocupa justamente o momento mais simbólico da festa: sua abertura oficial.
Imagine se o Carnaval do Rio de Janeiro abrisse sua programação oficial na Marquês de Sapucaí ao som de um show de forró, deixando as escolas de samba em segundo plano. Ou se o Festival de Parintins tivesse sua primeira grande apresentação comandada por uma banda de axé.
Provavelmente, a reação seria imediata.
Por que, então, em São Luís, parece natural que a principal vitrine do nosso São João abra mão de suas raízes?
Seria menos prejudicial se a abertura fosse feita por um banda de forró ou de um outro ritmo nordestino ou que remete a festa junina, não precisaria ser maranhense, mas que nos faça lembra que essa festa tem uma identidade.
A própria estrutura do evento já trouxe alguns pontos de discussão. A segurança gerou questionamentos, a pequena área de acesso causou confusão na entrada e o espaço reservado para convidados e autoridades acabou reduzindo ainda mais a área disponível para o público.
Mas nada disso supera a reflexão mais importante da noite: qual identidade queremos preservar para o São João de São Luís?
Nossa cidade não precisa copiar modelos de outros estados. Pelo contrário. O que faz do Maranhão um destino especial em junho é justamente aquilo que nenhum outro lugar consegue reproduzir: a riqueza dos seus sotaques, seus bois, seus tambores e suas tradições.
Temos uma das culturas populares mais fortes do Brasil. Não precisamos adaptá-la para parecer mais atrativa.
O São João já é grande porque é autêntico.
E talvez esteja na hora de lembrar que temos espaços diferentes para festas diferentes.
Temos Carnaval. Temos São João.
E o São João de São Luís merece começar com a cara, o som e a alma do Maranhão.
