As imagens que circularam nos últimos dias de uma diretora de escola pública em São Paulo sendo coagida por policiais militares por causa de uma atividade pedagógica deveriam causar indignação em qualquer cidadão que compreenda minimamente o papel da educação em uma sociedade democrática.
O motivo da polêmica? Uma atividade realizada por estudantes envolvendo a representação de Iansã, orixá da cultura afro-brasileira, dentro de um conteúdo amparado pela Lei nº 10.639/03, que estabelece a obrigatoriedade do ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas de ensino fundamental e médio do país.
Nada além do cumprimento da lei.
Ainda assim, policiais militares foram mobilizados para atender a reclamação de um pai insatisfeito com a atividade. O que se viu nas imagens foi uma situação desconfortável: agentes do Estado, aparentemente sem conhecimento da legislação em questão, pressionando uma profissional da educação que, em tom sereno, buscava explicar os fundamentos pedagógicos e legais do trabalho realizado.
Em determinado momento, um dos policiais, visivelmente alterado, chegou a atribuir à diretora a responsabilidade pela falta de entendimento entre as partes, numa inversão preocupante de papéis. Coube à educadora, pacientemente, ensinar àqueles que haviam chegado à escola sem conhecer a própria legislação que fundamentava a atividade.
A cena é simbólica.
Mais do que um episódio isolado, ela representa um fenômeno cada vez mais comum no Brasil: a transformação da escola em território de disputa ideológica, onde qualquer pessoa se sente autorizada a interferir no trabalho pedagógico e questionar conhecimentos consolidados pela ciência, pela história e pela legislação.
Ser professor ou gestor escolar tornou-se uma atividade de risco.
Não apenas pelos desafios da violência que ronda muitas instituições de ensino, mas também pela pressão crescente de grupos que acreditam que a educação deve refletir exclusivamente suas convicções pessoais, ignorando a pluralidade que caracteriza uma sociedade democrática.
Nos últimos anos, vimos teorias absurdas ganharem espaço no debate público. Houve quem defendesse que a Terra fosse plana. Houve quem desacreditasse vacinas em meio a uma pandemia que matou milhões de pessoas. E, em muitos casos, professores e pesquisadores foram hostilizados justamente por defenderem aquilo que deveria ser o mínimo consenso civilizatório: o conhecimento produzido pela ciência e respaldado por décadas de estudos.
É impossível não recordar o “Mito da Caverna”, de Platão. Na alegoria do filósofo grego, aquele que se liberta das sombras e conhece a realidade retorna para compartilhar o conhecimento com os demais, mas é recebido com hostilidade por aqueles que preferem permanecer na escuridão.
Mais de dois mil anos depois, parece que continuamos convivendo com o mesmo dilema.
A diferença é que, agora, as sombras vêm acompanhadas de celulares, redes sociais e discursos que transformam a ignorância em opinião e o preconceito em liberdade de expressão.
O caso da diretora paulista não é um episódio isolado. Infelizmente, ele se soma a uma sequência de ataques, intimidações e tentativas de criminal
