A tarde da última sexta-feira (22) ficará marcada na memória de muitos moradores de São Luís. Em poucas horas, a capital maranhense assistiu a um cenário raro e assustador: ventos fortes arrancando árvores, telhados sendo destruídos, ruas completamente alagadas e famílias inteiras tentando salvar o pouco que tinham diante da força da água.
O que muitos classificaram como uma verdadeira “tromba d’água” não foi apenas mais uma chuva forte do período chuvoso. O fenômeno revelou, de forma cruel, aquilo que há anos vem sendo ignorado pelas autoridades: São Luís não está preparada para enfrentar os impactos das mudanças climáticas.
Bastaram poucos minutos de chuva intensa para que vários pontos da cidade mergulhassem no caos. Bairros historicamente afetados por alagamentos ficaram ainda mais vulneráveis. Comerciantes perderam mercadorias. Moradores tiveram suas casas invadidas pela água. Motoristas ficaram ilhados. E, mais uma vez, a população precisou enfrentar praticamente sozinha os prejuízos de uma tragédia anunciada.
O problema, no entanto, vai muito além do que aconteceu na tarde de sexta. O verdadeiro motivo de preocupação é o que ainda pode acontecer nos próximos meses.
Com o aumento da temperatura das águas do Oceano Pacífico e o agravamento dos efeitos do fenômeno climático El Niño, os eventos extremos tendem a se tornar mais frequentes e intensos. O que antes parecia distante agora bate à nossa porta com força. E os sinais já estão sendo dados pela própria natureza.
A pergunta que fica é inevitável: a capital do Maranhão está preparada para enfrentar essa nova realidade?
A resposta, infelizmente, é não.
Durante anos, os problemas estruturais da cidade foram sendo empurrados para debaixo do tapete. Obras superficiais de recapeamento e asfaltamento foram vendidas como solução urbana, enquanto questões essenciais seguiram esquecidas. Não existe mobilidade eficiente sem drenagem adequada. Não existe infraestrutura urbana sem manutenção de bueiros, canais e sistemas de escoamento capazes de suportar chuvas intensas.
O resultado aparece sempre da mesma maneira: basta chover forte para que a cidade pare.
Mais grave ainda é perceber que pouco se fala sobre planejamento climático municipal. São Luís precisa urgentemente discutir políticas públicas voltadas para prevenção de desastres ambientais, mapeamento de áreas de risco, proteção das comunidades vulneráveis e investimentos reais em infraestrutura resiliente.
Além disso, a educação climática precisa deixar de ser um tema secundário. As mudanças no clima já fazem parte do nosso cotidiano e devem ser debatidas não apenas na educação básica, mas ao longo de toda a formação cidadã da população. Preparar as pessoas para compreender e enfrentar esses fenômenos é uma necessidade urgente.
É importante entender que catástrofes climáticas não dependem exclusivamente das ações individuais da população. Mas a preparação depende, sim, de escolhas políticas, planejamento urbano e responsabilidade pública.
O que vimos na sexta-feira talvez tenha sido apenas uma pequena amostra do que ainda está por vir.
E ignorar isso agora pode custar muito caro no futuro.
