A Defensoria Pública do Estado de Goiás ingressou com uma ação civil pública contra as emissoras Globo, CNN Brasil, Record e SBT após a divulgação de conteúdos que, segundo o órgão, contribuíram para um verdadeiro linchamento virtual contra Sarah Araújo, mãe das duas crianças mortas em Itumbiara (GO).
O caso, que chocou o país, é tratado pela investigação como duplo homicídio seguido de suicídio. De acordo com as autoridades, o autor do crime foi o ex-marido de Sarah, Thales Machado, que teria atirado contra os próprios filhos antes de tirar a própria vida.
Segundo a Defensoria, a tragédia ganhou proporções ainda mais dolorosas após a circulação de imagens nas redes sociais e em reportagens mostrando Sarah beijando outro homem. O material, conforme consta na ação, teria sido gravado a mando do próprio ex-companheiro, que chegou a contratar um detetive para segui-la.
Ela provou que estava solteira
Um dos pontos centrais do processo destaca que ficou comprovado que Sarah estava solteira no momento do crime e não mantinha mais qualquer relacionamento amoroso com o ex-marido.
Mesmo assim, a exposição das imagens teria levado parte da opinião pública a acusá-la injustamente de traição, desencadeando ataques virtuais e ofensas inclusive durante o enterro dos próprios filhos, situação tão grave que exigiu escolta policial.
A Defensoria sustenta que a divulgação do conteúdo reforçou narrativas que culpabilizaram a vítima, ampliando o sofrimento de uma mulher que já enfrentava uma perda irreparável.
Nenhuma mulher deveria precisar provar isso
O caso também levanta uma reflexão urgente: nenhuma mulher deveria ser obrigada a provar sua vida pessoal para justificar sua própria segurança ou dignidade.
Estar solteira, em um relacionamento ou reconstruindo a própria vida jamais pode servir como argumento para violência. Nada, absolutamente nada justifica o crime cometido.
Especialistas apontam que episódios como esse evidenciam como mulheres ainda são frequentemente julgadas publicamente por suas escolhas afetivas, enquanto a responsabilidade pela violência masculina é, muitas vezes, desviada ou relativizada.
Pedido de indenização e retratação
Na ação, a Defensoria Pública pede que as reportagens relacionadas à suposta traição sejam retiradas do ar em até 24 horas, sob pena de multa diária de R$ 10 mil. Também foi solicitada a publicação de retratação e o pagamento de R$ 1 milhão por danos morais coletivos, destinados a Sarah Araújo e ao Estado de Goiás.
O órgão afirma que a exposição midiática contribuiu para intensificar ataques e desinformação em um momento de extrema vulnerabilidade da vítima.
O caso segue em análise judicial e reacende um debate necessário no país: até quando mulheres continuarão sendo julgadas por suas vidas pessoais enquanto tentam sobreviver à própria dor?
